O discípulo zen-budista pós-moderno
Friday, September 14, 2012
Eremita urbano
vivo recluso no seio da cidade
sou tão urbano que as pessoas são pássaros
como bezerros de búfalos à minha volta
não me perturbam enquanto ando com as nuvens
o tráfego é um córrego mecânico - nada mais
tão adequado à meditação quanto qualquer córrego
porque no barulho dos carros que passam
grita a mesma realidade que vai na água
Monday, September 3, 2012
54 poemas de Montanha Fria
Montanha Fria (Han Shan, ou Cold Mountain), foi um ermitão do Século VIII que
se transformou numa figura lendária das tradições zen budistas e taoístas. Seus
poemas foram escritos em rochas, árvores e paredes de templos na China. Aqui
estão alguns deles, em português:
1
Penhascos elevados são a casa que escolhi
rastros de pássaros além das trilhas humanas
o que meu jardim contém
brancas nuvens agarrando-se a rochas escuras
cada ano tenho vivido aqui
eu vi as estações mudando
todos vocês donos de tripés e sinos
pra que servem nomes vazios?
rastros de pássaros além das trilhas humanas
o que meu jardim contém
brancas nuvens agarrando-se a rochas escuras
cada ano tenho vivido aqui
eu vi as estações mudando
todos vocês donos de tripés e sinos
pra que servem nomes vazios?
2
Todos vocês que leem meus poemas
guardem sua pureza de coração
deixem que sua ganância seja a modéstia
que sua vaidade seja a honestidade
ponha um fim no karma ruim
confie em sua própria natureza verdadeira
encontre seu corpo de buda hoje
faça-o rápido como a luz
guardem sua pureza de coração
deixem que sua ganância seja a modéstia
que sua vaidade seja a honestidade
ponha um fim no karma ruim
confie em sua própria natureza verdadeira
encontre seu corpo de buda hoje
faça-o rápido como a luz
5
Minha mente é como a lua de outono
límpida e clara em uma piscina de jade
nada se compara
o que mais eu poderia dizer?
límpida e clara em uma piscina de jade
nada se compara
o que mais eu poderia dizer?
8
Um belo rapaz cavalgando
ondula o chicote contra os salgueiros
ele não pode imaginar a morte
não constrói balsa ou escada
são amáveis as flores da estação
até que murcham e desaparecem
açúcar refinado e manteiga clareada
não têm importância quando você está morto
ondula o chicote contra os salgueiros
ele não pode imaginar a morte
não constrói balsa ou escada
são amáveis as flores da estação
até que murcham e desaparecem
açúcar refinado e manteiga clareada
não têm importância quando você está morto
10
De frente para os penhascos sentei-me sozinho
a lua brilhava no céu
mas lá onde mil formas surgiam
sua lanterna não projetava luz
o espírito desobstruído é límpido
a caverna vazia é um mistério
um dedo me mostrou a lua
a lua é o centro da mente
a lua brilhava no céu
mas lá onde mil formas surgiam
sua lanterna não projetava luz
o espírito desobstruído é límpido
a caverna vazia é um mistério
um dedo me mostrou a lua
a lua é o centro da mente
15
Chuang-tzu recomendou para seu funeral
deixem que o Céu e a Terra sejam meus caixões
quando eu atingir esse estado
tudo que preciso é de uma mortalha
deixem que meu corpo alimente as moscas
não se importem com carpideiras
eu preferiria passar fome na Montanha Shouyang
para os que vivem honestamente a morte também está bem
deixem que o Céu e a Terra sejam meus caixões
quando eu atingir esse estado
tudo que preciso é de uma mortalha
deixem que meu corpo alimente as moscas
não se importem com carpideiras
eu preferiria passar fome na Montanha Shouyang
para os que vivem honestamente a morte também está bem
32
Os que tomam o Caminho da Montanha Fria
tomam uma estrada sem fim
os rios são longos e empilhados de pedras
os córregos são largos e sufocados pela grama
não é a chuva que deixa o musgo escorregadio
e não é o vento que faz os pinheiros gemerem
quem pode atravessar as complicações do mundo
e sentar-se comigo sobre as nuvens?
tomam uma estrada sem fim
os rios são longos e empilhados de pedras
os córregos são largos e sufocados pela grama
não é a chuva que deixa o musgo escorregadio
e não é o vento que faz os pinheiros gemerem
quem pode atravessar as complicações do mundo
e sentar-se comigo sobre as nuvens?
38
Duas tartarugas a bordo de um carro de boi
participaram de um drama na estrada
um escorpião surgiu por ali
implorando desesperadamente por uma carona
uma recusa violaria a caridade
aceitar iria sobrecarregá-los
num momento breve demais para ser descrito
agindo gentilmente eles foram picados
participaram de um drama na estrada
um escorpião surgiu por ali
implorando desesperadamente por uma carona
uma recusa violaria a caridade
aceitar iria sobrecarregá-los
num momento breve demais para ser descrito
agindo gentilmente eles foram picados
40
Uma velha que vive ao leste
enriqueceu há poucos anos
antes mais pobre que eu
agora ela zomba minha pobreza
ela ri porque estou pra trás
eu rio que ela está à frente
parece que não podemos parar de rir
do leste ao oeste
enriqueceu há poucos anos
antes mais pobre que eu
agora ela zomba minha pobreza
ela ri porque estou pra trás
eu rio que ela está à frente
parece que não podemos parar de rir
do leste ao oeste
41
Os ricos têm demasiadas preocupações
não podem simplesmente se aquietar
seus grãos podem estar apodrecendo
e nem assim eles emprestariam um pouco
seus pensamentos são maliciosos
eles examinam tudo em busca da melhor seda
quando seu último dia chegar
todas as carpideiras serão moscas
não podem simplesmente se aquietar
seus grãos podem estar apodrecendo
e nem assim eles emprestariam um pouco
seus pensamentos são maliciosos
eles examinam tudo em busca da melhor seda
quando seu último dia chegar
todas as carpideiras serão moscas
42
Certa vez conheci um brilhante acadêmico
de cultura e astúcia sem iguais
a fama de seus exames ecoou por todo o reino
seus versos métricos superavam os dos outros
seus julgamentos eclipsavam todos os do passado
como ele pôde seguir a poeira alheia?
agora rico e respeitado ele persegue riqueza e beleza
o que se pode dizer sobre ladrilhos quebrados e gelo derretido?
de cultura e astúcia sem iguais
a fama de seus exames ecoou por todo o reino
seus versos métricos superavam os dos outros
seus julgamentos eclipsavam todos os do passado
como ele pôde seguir a poeira alheia?
agora rico e respeitado ele persegue riqueza e beleza
o que se pode dizer sobre ladrilhos quebrados e gelo derretido?
44
Geralmente vivo recluso
mas às vezes vou a Kuoching
para me encontrar com o Venerável Feng-kan
ou para visitar Mestre Shih-te
mas volto para o Penhasco Frio sozinho
observando um acordo não-dito
eu sigo um córrego que não tem nascente
a nascente está seca mas o córrego não
mas às vezes vou a Kuoching
para me encontrar com o Venerável Feng-kan
ou para visitar Mestre Shih-te
mas volto para o Penhasco Frio sozinho
observando um acordo não-dito
eu sigo um córrego que não tem nascente
a nascente está seca mas o córrego não
48
Sob altos penhascos eu vivo sozinho
nuvens contorcidas se contorcem todo o dia
pode ser obscuro dentro da minha cabana
mas em minha mente eu não ouço barulho
eu atravessei um portão dourado num sonho
meu espírito retornou quando passei por uma ponte de pedra
deixei para trás o que me pesava
meu passarinho num galho clique claque
nuvens contorcidas se contorcem todo o dia
pode ser obscuro dentro da minha cabana
mas em minha mente eu não ouço barulho
eu atravessei um portão dourado num sonho
meu espírito retornou quando passei por uma ponte de pedra
deixei para trás o que me pesava
meu passarinho num galho clique claque
68
Neste barco de madeira apodrecida
colhendo frutos da árvore dos desejos
aqui estamos no mar aberto
onde as ondas nunca cessam
a praia a um bilhão de quilômetros
qual a causa do seu sofrimento?
ah, que pena, ele vem da amargura
colhendo frutos da árvore dos desejos
aqui estamos no mar aberto
onde as ondas nunca cessam
a praia a um bilhão de quilômetros
qual a causa do seu sofrimento?
ah, que pena, ele vem da amargura
69
Se você é quieto e nunca fala
o que deixa para a posteridade?
se você se esconde em bosques e pântanos
como sua sabedoria poderá se revelar?
definhar não é saudável
vento e geada trazem doenças prematuras
um boi de barro arando um campo rochoso
jamais conhecerá colheita
o que deixa para a posteridade?
se você se esconde em bosques e pântanos
como sua sabedoria poderá se revelar?
definhar não é saudável
vento e geada trazem doenças prematuras
um boi de barro arando um campo rochoso
jamais conhecerá colheita
92
O céu é infinitamente alto
a Terra é imensuravelmente profunda
entre eles criaturas vivas
à mercê desses Poderes
batendo cabeças por roupas e por comida
planejando comer uns aos outros
ainda ignorantes sobre causa e efeito
cegos perguntando a cor do leite
a Terra é imensuravelmente profunda
entre eles criaturas vivas
à mercê desses Poderes
batendo cabeças por roupas e por comida
planejando comer uns aos outros
ainda ignorantes sobre causa e efeito
cegos perguntando a cor do leite
94
Um homem sábio não é ganancioso
já o tolo ama uma fornalha
seu campo invade o dos outros
o bambuzal é dele
ele estende os braços pra abraçar riquezas
range os dentes e se enche de reclamações
ele deveria olhar além dos portões da cidade
para todos os túmulos sob os pinheiros
já o tolo ama uma fornalha
seu campo invade o dos outros
o bambuzal é dele
ele estende os braços pra abraçar riquezas
range os dentes e se enche de reclamações
ele deveria olhar além dos portões da cidade
para todos os túmulos sob os pinheiros
97
Cozinhe areia para o seu jantar
quando estiver com sede cave um poço
vá polir um tijolo com o melhor de si
e nem assim produzirá um espelho
o Buda disse que somos basicamente iguais
compartilhamos a mesma natureza verdadeira
descubra por conta própria
desista de se contorcer inutilmente
quando estiver com sede cave um poço
vá polir um tijolo com o melhor de si
e nem assim produzirá um espelho
o Buda disse que somos basicamente iguais
compartilhamos a mesma natureza verdadeira
descubra por conta própria
desista de se contorcer inutilmente
102
Eu me retirei para o fim de uma floresta
e escolhi a vida de um fazendeiro
reto em minhas ações
sem vaidade na fala
eu prefiro a jade bruta
você pode ficar com suas joias
eu nunca poderia me juntar ao bando
de patos emergindo das ondas
e escolhi a vida de um fazendeiro
reto em minhas ações
sem vaidade na fala
eu prefiro a jade bruta
você pode ficar com suas joias
eu nunca poderia me juntar ao bando
de patos emergindo das ondas
107
Meus pergaminhos cobertos com poemas de imortais
minhas canecas transbordando com o vinho dos sábios
trabalhando ao ar livre adoro observar os bezerros de búfalos
em casa não vou longe
e quando o orvalho frio ensopa meu beiral de palha
e a luz da lua ilumina o peitoril improvisado
eu bebo algumas canecas
e cantarolo um ou outro verso
minhas canecas transbordando com o vinho dos sábios
trabalhando ao ar livre adoro observar os bezerros de búfalos
em casa não vou longe
e quando o orvalho frio ensopa meu beiral de palha
e a luz da lua ilumina o peitoril improvisado
eu bebo algumas canecas
e cantarolo um ou outro verso
130
Feijões pintados não são para mim
a floresta é minha casa
uma vida inteira passa de repente
não pense que seus problemas podem esperar
aqueles que não constroem uma balsa para atravessar
afogam-se enquanto estão colhendo flores
a menos que plante boas raízes hoje
você nunca verá um botão
a floresta é minha casa
uma vida inteira passa de repente
não pense que seus problemas podem esperar
aqueles que não constroem uma balsa para atravessar
afogam-se enquanto estão colhendo flores
a menos que plante boas raízes hoje
você nunca verá um botão
132
O mundo está cheio de gente ocupada
bem versada em inúmeros pontos de vista
cega para sua verdadeira natureza
eles se afastam do Caminho
se eles pudessem ver o que é real
não falariam sobre sonhos vazios
um instante responde às suas orações
revelando a visão de um buda
bem versada em inúmeros pontos de vista
cega para sua verdadeira natureza
eles se afastam do Caminho
se eles pudessem ver o que é real
não falariam sobre sonhos vazios
um instante responde às suas orações
revelando a visão de um buda
155
Para os cem anos de vida humana
o Buda pregou os doze canhões
mas compaixão é como um veado selvagem
e raiva é como o cachorro da família
você não consegue se livrar do cachorro
enquanto o veado prefere sair correndo
para domar sua mente de macaco
ouça o rugir do leão
o Buda pregou os doze canhões
mas compaixão é como um veado selvagem
e raiva é como o cachorro da família
você não consegue se livrar do cachorro
enquanto o veado prefere sair correndo
para domar sua mente de macaco
ouça o rugir do leão
157
A Montanha Fria tem várias maravilhas
todos os escaladores se amedrontam
a água tremula à luz da lua
as plantas farfalham ao vento
ameixeiras murchas com flores de neve
de plantas subaquáticas brotam folhas de nuvens
tocados pela chuva, todos revivem
a menos que esteja claro você não pode atravessar
todos os escaladores se amedrontam
a água tremula à luz da lua
as plantas farfalham ao vento
ameixeiras murchas com flores de neve
de plantas subaquáticas brotam folhas de nuvens
tocados pela chuva, todos revivem
a menos que esteja claro você não pode atravessar
163
Eu tenho uma caverna
uma caverna sem nada lá dentro
espaçosa e livre de poeira
cheia de luz que sempre brilha
uma refeição de plantas alimenta um corpo frágil
uma túnica de pano mascara uma miragem
deixe que seus mil sábios apareçam
eu tenho o buda primordial
uma caverna sem nada lá dentro
espaçosa e livre de poeira
cheia de luz que sempre brilha
uma refeição de plantas alimenta um corpo frágil
uma túnica de pano mascara uma miragem
deixe que seus mil sábios apareçam
eu tenho o buda primordial
167
Montanha Fria tem uma casa
sem partições internas
seis portas abertas por todos os lados
do hall ele observa o céu azul
pra onde quer que ele olhe tudo é revelado
a parede leste acolhe a oeste
nada se interpõe entre elas
sem depender da ajuda de ninguém
ele faz uma pequena fogueira quando o frio chega
cozinha plantas quando a fome vem
ele não é como o fazendeiro caipira
aumentando seus campos e barracões
produzindo nada além de karma infernal
uma vez iniciado, nunca termina
pense bem sobre isso
pense e descubra a chave
sem partições internas
seis portas abertas por todos os lados
do hall ele observa o céu azul
pra onde quer que ele olhe tudo é revelado
a parede leste acolhe a oeste
nada se interpõe entre elas
sem depender da ajuda de ninguém
ele faz uma pequena fogueira quando o frio chega
cozinha plantas quando a fome vem
ele não é como o fazendeiro caipira
aumentando seus campos e barracões
produzindo nada além de karma infernal
uma vez iniciado, nunca termina
pense bem sobre isso
pense e descubra a chave
170
As pessoas que vejo nesse mundo
caminham confusas na poeira da estrada
elas não sabem onde estão
ou como encontrar o ponto certo para cruzar o rio
seu desabrochar dura quantos dias?
seus amados não permanecem perto por muito tempo
mesmo que eu tivesse uma tonelada de ouro
preferiria ser pobre na floresta
caminham confusas na poeira da estrada
elas não sabem onde estão
ou como encontrar o ponto certo para cruzar o rio
seu desabrochar dura quantos dias?
seus amados não permanecem perto por muito tempo
mesmo que eu tivesse uma tonelada de ouro
preferiria ser pobre na floresta
180
Eu alcancei a Montanha Fria e todas complicações cessaram
nenhum pensamento ocioso permaneceu em minha mente
sem nada pra fazer escrevo poemas nas pedras
e confio na corrente como um barco à deriva
nenhum pensamento ocioso permaneceu em minha mente
sem nada pra fazer escrevo poemas nas pedras
e confio na corrente como um barco à deriva
183
Eles riem de mim ei, caipira
seu rosto é meio fino
seu chapéu não está alto o bastante
seu cinto está alto demais
não é que eu desconheça as tendências
quando se é pobre você não pode acompanhar
um dia serei rico
e vou vestir uma auréola sobre minha cabeça
seu rosto é meio fino
seu chapéu não está alto o bastante
seu cinto está alto demais
não é que eu desconheça as tendências
quando se é pobre você não pode acompanhar
um dia serei rico
e vou vestir uma auréola sobre minha cabeça
186
Fadigue sua mente por lucro e fama
uma ganância descomunal para aprimorar seu corpo
o ilusório tremular passageiro de um toco de vela
enterrado numa cova ainda existe?
uma ganância descomunal para aprimorar seu corpo
o ilusório tremular passageiro de um toco de vela
enterrado numa cova ainda existe?
187
Qual a coisa mais triste do mundo?
as balsas de pecado que as pessoas constroem para chegar ao inferno
ignorando o homem nas nuvens e penhascos
com uma túnica fina para os caminhos de sua vida
no outono ele deixa que as folhas caiam
na primavera ele deixa que as árvores desabrochem
ele dorme através dos Três Reinos livre de preocupações
com a luz da lua e o vento como lar
as balsas de pecado que as pessoas constroem para chegar ao inferno
ignorando o homem nas nuvens e penhascos
com uma túnica fina para os caminhos de sua vida
no outono ele deixa que as folhas caiam
na primavera ele deixa que as árvores desabrochem
ele dorme através dos Três Reinos livre de preocupações
com a luz da lua e o vento como lar
188
Alguém suspirou Senhor Montanha Fria
seus poemas não fazem sentido
eu disse para os antigos
pobreza não era desgraça
a isso ele respondeu rindo
sua argumentação é pobre
ora senhor continue como está
com dinheiro sua preocupação
seus poemas não fazem sentido
eu disse para os antigos
pobreza não era desgraça
a isso ele respondeu rindo
sua argumentação é pobre
ora senhor continue como está
com dinheiro sua preocupação
204
Desço até o córrego para observar o fluir da jade
ou volto ao penhasco para sentar-me numa pedra
minha mente como nuvem permanece desapegada
do que preciso no mundo lá longe?
ou volto ao penhasco para sentar-me numa pedra
minha mente como nuvem permanece desapegada
do que preciso no mundo lá longe?
207
As Montanhas Tientai são minha casa
trilhas encobertas de neblina mantêm os visitantes afastados
penhascos de mil metros facilitam esconderijos
sobre uma ponta rochosa entre dez mil córregos
com um chapéu de casca de árvore e tamancos de madeira eu caminho pelas margens
com uma túnica de cânhamo e um cajado de ramo seco faço romaria nos picos
depois que você enxerga através da transitoriedade e da ilusão
os prazeres de perambular livremente são de fato admiráveis
trilhas encobertas de neblina mantêm os visitantes afastados
penhascos de mil metros facilitam esconderijos
sobre uma ponta rochosa entre dez mil córregos
com um chapéu de casca de árvore e tamancos de madeira eu caminho pelas margens
com uma túnica de cânhamo e um cajado de ramo seco faço romaria nos picos
depois que você enxerga através da transitoriedade e da ilusão
os prazeres de perambular livremente são de fato admiráveis
208
Já não vemos o orvalho desta manhã
que desapareceu à luz da aurora
o corpo humano não é diferente
e a montanha é um lar temporário
não siga cegamente o seu despertar
deixe que os Três Venenos se percam
iluminação é aflição
deixe que tudo se vá até que não reste nada
que desapareceu à luz da aurora
o corpo humano não é diferente
e a montanha é um lar temporário
não siga cegamente o seu despertar
deixe que os Três Venenos se percam
iluminação é aflição
deixe que tudo se vá até que não reste nada
209
Quando a água faísca de tão cristalina
você pode ver o fundo sem dificuldade
quando sua mente não tem um objetivo
nenhuma circunstância pode distraí-lo
quando sua mente para de perseguir ilusões
mesmo num kalpa não há mudanças
se você puder manter essa atenção
de tal atenção nada se esconde
você pode ver o fundo sem dificuldade
quando sua mente não tem um objetivo
nenhuma circunstância pode distraí-lo
quando sua mente para de perseguir ilusões
mesmo num kalpa não há mudanças
se você puder manter essa atenção
de tal atenção nada se esconde
210
Falar sobre comida não pode alimentar
falar sobre roupas não pode aquecer
apenas comer vai te alimentar
apenas vestir-se vai te aquecer
pessoas que não têm bom senso
apenas dizem que um buda é difícil de encontrar
olhe dentro de sua mente lá está o buda
não vá procurá-lo do lado de fora
falar sobre roupas não pode aquecer
apenas comer vai te alimentar
apenas vestir-se vai te aquecer
pessoas que não têm bom senso
apenas dizem que um buda é difícil de encontrar
olhe dentro de sua mente lá está o buda
não vá procurá-lo do lado de fora
211
O sofrimento da Roda é implacável
de um lado para o outro levantando poeira
a patrulha formiga em sua ronda interminável
os Seis Caminhos não passam de confusão
trocando cabeças e mudando de rosto
não te liberta de si mesmo
dê um fim a esse inferno de escuridão
não deixe que sua mente obscureça
de um lado para o outro levantando poeira
a patrulha formiga em sua ronda interminável
os Seis Caminhos não passam de confusão
trocando cabeças e mudando de rosto
não te liberta de si mesmo
dê um fim a esse inferno de escuridão
não deixe que sua mente obscureça
215
Ouvi dizer que no Monte Tientai
em alguma parte há árvores de jade
e apesar de ter dito que iria vê-las
uma ponte com quarenta pés de distância e um pé de largura impede o caminho
por isso me incomodo
meus melhores dias estão quase terminando
hoje quando olhei para um espelho
tudo que vi foram cachos de branco
em alguma parte há árvores de jade
e apesar de ter dito que iria vê-las
uma ponte com quarenta pés de distância e um pé de largura impede o caminho
por isso me incomodo
meus melhores dias estão quase terminando
hoje quando olhei para um espelho
tudo que vi foram cachos de branco
218
As pessoas que Montanha Fria encontra
dizem todas que ele é louco
seu rosto não merece uma olhadela
seu corpo é coberto por trapos
eles não entendem minhas palavras
suas palavras eu não vou dizer
isto é para os que virão
venha visitar Motanha Fria qualquer hora dessas
dizem todas que ele é louco
seu rosto não merece uma olhadela
seu corpo é coberto por trapos
eles não entendem minhas palavras
suas palavras eu não vou dizer
isto é para os que virão
venha visitar Motanha Fria qualquer hora dessas
219
Pessoas que perambulam sobre as nuvens
não precisam comprar as colinas
para descidas íngremes você precisa de um cajado
e de uma videira para as escaladas mais encarpadas
pinheiros à beira dos córregos estão sempre verdes
as pedras da costa são de todas as cores
ainda que amigos possam ficar separados
na primavera os pássaros kuan-kuan
não precisam comprar as colinas
para descidas íngremes você precisa de um cajado
e de uma videira para as escaladas mais encarpadas
pinheiros à beira dos córregos estão sempre verdes
as pedras da costa são de todas as cores
ainda que amigos possam ficar separados
na primavera os pássaros kuan-kuan
223
Pessoas não podem explicar
por que são tão malucas
os dois pássaros malvados sobre suas cabeças
os três venenos de cobra em seus corações
um ou o outro bloqueia seu caminho
fazendo com que as coisas se tornem difíceis
erga suas mãos e estale seus dedos
Homenagem ao Buda
por que são tão malucas
os dois pássaros malvados sobre suas cabeças
os três venenos de cobra em seus corações
um ou o outro bloqueia seu caminho
fazendo com que as coisas se tornem difíceis
erga suas mãos e estale seus dedos
Homenagem ao Buda
224
Eu aprecio o caminho simples
entre escuras videiras e cavernas na montanha
na selva há espaço para vagar
com nuvens brancas como companheiras
há uma estrada mas não para a cidade
apenas homens com a mente vazia podem escalar
à noite eu sento sozinho sobre as pedras
até que a lua surja Montanha Fria
entre escuras videiras e cavernas na montanha
na selva há espaço para vagar
com nuvens brancas como companheiras
há uma estrada mas não para a cidade
apenas homens com a mente vazia podem escalar
à noite eu sento sozinho sobre as pedras
até que a lua surja Montanha Fria
225
O Grande Mar é infinito
dragões e peixes aos bilhões
todos comendo uns aos outros
nacos ocupados idiotas de carne
porque a mente nunca para
ilusão surge como névoa
a lua de nossa natureza é límpida e brilhante
a céu aberto ela brilha sem limites
dragões e peixes aos bilhões
todos comendo uns aos outros
nacos ocupados idiotas de carne
porque a mente nunca para
ilusão surge como névoa
a lua de nossa natureza é límpida e brilhante
a céu aberto ela brilha sem limites
247
Nessa vila há uma casa
uma casa sem dono
da terra surge grama
água aparece como gotas de orvalho
o vento traz uma nuvem escura de chuva
procure lá dentro por seu ocupante
uma pérola escondida entre os trapos
uma casa sem dono
da terra surge grama
água aparece como gotas de orvalho
o vento traz uma nuvem escura de chuva
procure lá dentro por seu ocupante
uma pérola escondida entre os trapos
264
Eu sento no topo de uma pedra
o córrego frio como gelo
prazeres calmos têm um charme especial
penhascos descobertos no nevoeiro encantam
este lugar é tão relaxante
o sol cai e as sombras se alastram
eu observo o chão de minha mente
e uma lótus surge da lama
265
Quando ermitões se escondem da sociedade
a maioria se retira para as colinas
onde videiras verdes velam as ladeiras
e córregos de jade ecoam inquebráveis
onde felicidade reina
e a satisfação é duradoura
onde puras mentes lótus brancas
não são manchadas pelo mundo enlameado
274
Gosto do isolamento no Penhasco Frio
ninguém viaja por aqui
um grande pico atravessa as nuvens
um mico solitário grita na serra
o que poderia me agradar mais?
com o coração satisfeito aproveito a velhice
as estações mudam minha aparência
mas a pérola da minha mente permanece segura
279
Entre milhares de nuvens e córregos
em alguma parte há um homem ocioso
perambulando as montanhas durante o dia
dormindo sob os penhascos à noite
observando invernos e primaveras passando
livre de preocupações e de fardos terrenos
feliz apegando-se a nada
silencioso como um rio no outono
285
Montanha Fria diz estas palavras
estas palavras nas quais ninguém acredita
mel desce com facilidade
chá de boldo é difícil de engolir
concordância deixa os homens felizes
oposição os deixa tristes
tudo que eu vejo são fantoches
ensaiando uma nova tragédia
293
As pessoas de pensamento rápido que conheço
olham e sabem o significado
elas não se importam com escrituras
elas vão direto para o estágio de buda
seus corações não perseguem conexões
suas mentes não formam ilusões
uma vez que seus corações e mentes estão quietos
todo trabalho está completo por dentro e por fora
299
Pessoas riem dos meus poemas
meus poemas são suficientemente elegantes
eles não precisam dos comentários de Cheng Hsuan
muito menos das explicações de Mao Heng
eu não me importo que poucos compreendam
são raros os que conhecem a própria voz
se não tivéssemos dó ou ré
minha anomalia certamente seria popular
um dia encontrarei alguém com olhos
e meus poemas vão empestear o mundo
304
Entre altos penhascos
há bastante brisa
não há necessidade de leque
o vento frio atravessa
iluminado pela lua
cercado por nuvens
eu me sento sozinho
um velho de cabelos brancos
307
Quem tem os poemas de Montanha Fria
está melhor do que aqueles com sutras
escreva-los em sua tela
e leia-os de tempos em tempos
Eu sento no topo de uma pedra
o córrego frio como gelo
prazeres calmos têm um charme especial
penhascos descobertos no nevoeiro encantam
este lugar é tão relaxante
o sol cai e as sombras se alastram
eu observo o chão de minha mente
e uma lótus surge da lama
265
Quando ermitões se escondem da sociedade
a maioria se retira para as colinas
onde videiras verdes velam as ladeiras
e córregos de jade ecoam inquebráveis
onde felicidade reina
e a satisfação é duradoura
onde puras mentes lótus brancas
não são manchadas pelo mundo enlameado
274
Gosto do isolamento no Penhasco Frio
ninguém viaja por aqui
um grande pico atravessa as nuvens
um mico solitário grita na serra
o que poderia me agradar mais?
com o coração satisfeito aproveito a velhice
as estações mudam minha aparência
mas a pérola da minha mente permanece segura
279
Entre milhares de nuvens e córregos
em alguma parte há um homem ocioso
perambulando as montanhas durante o dia
dormindo sob os penhascos à noite
observando invernos e primaveras passando
livre de preocupações e de fardos terrenos
feliz apegando-se a nada
silencioso como um rio no outono
285
Montanha Fria diz estas palavras
estas palavras nas quais ninguém acredita
mel desce com facilidade
chá de boldo é difícil de engolir
concordância deixa os homens felizes
oposição os deixa tristes
tudo que eu vejo são fantoches
ensaiando uma nova tragédia
293
As pessoas de pensamento rápido que conheço
olham e sabem o significado
elas não se importam com escrituras
elas vão direto para o estágio de buda
seus corações não perseguem conexões
suas mentes não formam ilusões
uma vez que seus corações e mentes estão quietos
todo trabalho está completo por dentro e por fora
299
Pessoas riem dos meus poemas
meus poemas são suficientemente elegantes
eles não precisam dos comentários de Cheng Hsuan
muito menos das explicações de Mao Heng
eu não me importo que poucos compreendam
são raros os que conhecem a própria voz
se não tivéssemos dó ou ré
minha anomalia certamente seria popular
um dia encontrarei alguém com olhos
e meus poemas vão empestear o mundo
304
Entre altos penhascos
há bastante brisa
não há necessidade de leque
o vento frio atravessa
iluminado pela lua
cercado por nuvens
eu me sento sozinho
um velho de cabelos brancos
307
Quem tem os poemas de Montanha Fria
está melhor do que aqueles com sutras
escreva-los em sua tela
e leia-os de tempos em tempos
Tuesday, July 3, 2012
Um koan sobre dois monges e uma cortina
Quando os monges se reuniram antes do almoço para ouvir a palestra do grande Hogen de Seiryo, ele apontou para as cortinas de bambu. Dois monges se levantaram simultaneamente para abrir as cortinas. Hogen disse: "Uma perda e um ganho."
Tentar explicar um koan é como tentar explicar uma piada. Você pode tentar, mas a característica principal do texto se perde. Tendo isso em mente, há algo que eu gostaria de desdobrar a partir desse aí em cima.
Dois monges se levantaram e atenderam o pedido de Hogen, sem que ele precisasse se explicar. Por que ele diria "Uma perda e um ganho?"
Talvez antes fosse útil entender o que é apreciado e o que é criticado entre gente zen budista. É um assunto complicado, porque o próprio comentário do monge que compilou os koan nos lembra que não devemos pensar nas coisas sob a perspectiva de perda/ganho. Buscamos um estado de espírito que não se preocupa com esse tipo de coisa. Mas como chegar lá? Como atingir um estado de espírito que se mantém imperturbável em qualquer situação, indiferente às condições externas?
Ainda que a própria relação perda/ganho seja criticada por gente zen, entendo que antes de atingir esse estado de espírito - enquanto ainda somos escravos das relações de perda/ganho - devemos ao menos focar nossa escravidão de forma a valorizar o que nos aproxima daquele estado de espírito citado acima e a evitar o que nos afasta dele.
Um dos princípios da experiência zen budista é um estado de atenção imediata do qual nascem reações espontâneas e imediatas, sem hesitação. Isso também é algo que você precisa experimentar para depois discutir sua experiência, mas, pra você que é meio lerdo, há gente teorizando que a nossa primeira percepção de um objeto qualquer é pura e límpida. É a primeira reação da atenção. Então essa primeira reação - em si mesma - também se torna alvo de atenção da percepção, criando um "fantasma" entre a consciência e o que a consciência percebe do mundo. A consciência pode entrar em looping, por exemplo, e abandonar completamente a experiência imediata para ocupar-se com símbolos que apontam para outros símbolos. O zen envolve o descartar desse looping em favor de um contato direto com o AGORA.
Esse estado é obtido durante a meditação e, em monastérios, mantido durante a maior parte do dia. Assim, entendemos que os monges que se levantaram para subir a cortina demonstraram progresso por entenderem a intenção do mestre sem que ele precisasse fazer mais que apontar. Estavam atentos e vivendo no momento. Um ganho?
E qual a perda? Porra, por que DOIS monges?
Quer dizer, se eles estavam de fato atentos o suficiente para intuir a intenção do mestre, é justo assumir que também percebiam o fato de que dois se levantavam para fazer o serviço de um. Ainda assim, os dois foram até lá para realizar o trabalho. Se estavam atentos, um deles não poderia ter contido seu gesto de levantar e deixar que apenas o outro subisse as cortinas?
O tradutor sugere que talvez eles quisessem impressionar o mestre. Puxar saco - todos sabemos como é. O mundo muda muito, mas nossos instintos básicos parecem os mesmos. O tradutor continua: "...eles poderiam estar pensando em ganhar mérito. Isso é sempre rejeitado no zen. Se você tem algo em mente com o qual pretende se mostrar, você é criticado. No zen, é esperado que você se comporte inocentemente - em outras palavras, que não se desvie da mente cotidiana. Se você mantém a mente cotidiana, não será afetado por quaisquer críticas que encontrar."
Tentar explicar um koan é como tentar explicar uma piada. Você pode tentar, mas a característica principal do texto se perde. Tendo isso em mente, há algo que eu gostaria de desdobrar a partir desse aí em cima.
Dois monges se levantaram e atenderam o pedido de Hogen, sem que ele precisasse se explicar. Por que ele diria "Uma perda e um ganho?"
Talvez antes fosse útil entender o que é apreciado e o que é criticado entre gente zen budista. É um assunto complicado, porque o próprio comentário do monge que compilou os koan nos lembra que não devemos pensar nas coisas sob a perspectiva de perda/ganho. Buscamos um estado de espírito que não se preocupa com esse tipo de coisa. Mas como chegar lá? Como atingir um estado de espírito que se mantém imperturbável em qualquer situação, indiferente às condições externas?
Ainda que a própria relação perda/ganho seja criticada por gente zen, entendo que antes de atingir esse estado de espírito - enquanto ainda somos escravos das relações de perda/ganho - devemos ao menos focar nossa escravidão de forma a valorizar o que nos aproxima daquele estado de espírito citado acima e a evitar o que nos afasta dele.
Um dos princípios da experiência zen budista é um estado de atenção imediata do qual nascem reações espontâneas e imediatas, sem hesitação. Isso também é algo que você precisa experimentar para depois discutir sua experiência, mas, pra você que é meio lerdo, há gente teorizando que a nossa primeira percepção de um objeto qualquer é pura e límpida. É a primeira reação da atenção. Então essa primeira reação - em si mesma - também se torna alvo de atenção da percepção, criando um "fantasma" entre a consciência e o que a consciência percebe do mundo. A consciência pode entrar em looping, por exemplo, e abandonar completamente a experiência imediata para ocupar-se com símbolos que apontam para outros símbolos. O zen envolve o descartar desse looping em favor de um contato direto com o AGORA.
Esse estado é obtido durante a meditação e, em monastérios, mantido durante a maior parte do dia. Assim, entendemos que os monges que se levantaram para subir a cortina demonstraram progresso por entenderem a intenção do mestre sem que ele precisasse fazer mais que apontar. Estavam atentos e vivendo no momento. Um ganho?
E qual a perda? Porra, por que DOIS monges?
Quer dizer, se eles estavam de fato atentos o suficiente para intuir a intenção do mestre, é justo assumir que também percebiam o fato de que dois se levantavam para fazer o serviço de um. Ainda assim, os dois foram até lá para realizar o trabalho. Se estavam atentos, um deles não poderia ter contido seu gesto de levantar e deixar que apenas o outro subisse as cortinas?
O tradutor sugere que talvez eles quisessem impressionar o mestre. Puxar saco - todos sabemos como é. O mundo muda muito, mas nossos instintos básicos parecem os mesmos. O tradutor continua: "...eles poderiam estar pensando em ganhar mérito. Isso é sempre rejeitado no zen. Se você tem algo em mente com o qual pretende se mostrar, você é criticado. No zen, é esperado que você se comporte inocentemente - em outras palavras, que não se desvie da mente cotidiana. Se você mantém a mente cotidiana, não será afetado por quaisquer críticas que encontrar."
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