Quando os monges se reuniram antes do almoço para ouvir a palestra do grande Hogen de Seiryo, ele apontou para as cortinas de bambu. Dois monges se levantaram simultaneamente para abrir as cortinas. Hogen disse: "Uma perda e um ganho."
Tentar explicar um koan é como tentar explicar uma piada. Você pode tentar, mas a característica principal do texto se perde. Tendo isso em mente, há algo que eu gostaria de desdobrar a partir desse aí em cima.
Dois monges se levantaram e atenderam o pedido de Hogen, sem que ele precisasse se explicar. Por que ele diria "Uma perda e um ganho?"
Talvez antes fosse útil entender o que é apreciado e o que é criticado entre gente zen budista. É um assunto complicado, porque o próprio comentário do monge que compilou os koan nos lembra que não devemos pensar nas coisas sob a perspectiva de perda/ganho. Buscamos um estado de espírito que não se preocupa com esse tipo de coisa. Mas como chegar lá? Como atingir um estado de espírito que se mantém imperturbável em qualquer situação, indiferente às condições externas?
Ainda que a própria relação perda/ganho seja criticada por gente zen, entendo que antes de atingir esse estado de espírito - enquanto ainda somos escravos das relações de perda/ganho - devemos ao menos focar nossa escravidão de forma a valorizar o que nos aproxima daquele estado de espírito citado acima e a evitar o que nos afasta dele.
Um dos princípios da experiência zen budista é um estado de atenção imediata do qual nascem reações espontâneas e imediatas, sem hesitação. Isso também é algo que você precisa experimentar para depois discutir sua experiência, mas, pra você que é meio lerdo, há gente teorizando que a nossa primeira percepção de um objeto qualquer é pura e límpida. É a primeira reação da atenção. Então essa primeira reação - em si mesma - também se torna alvo de atenção da percepção, criando um "fantasma" entre a consciência e o que a consciência percebe do mundo. A consciência pode entrar em looping, por exemplo, e abandonar completamente a experiência imediata para ocupar-se com símbolos que apontam para outros símbolos. O zen envolve o descartar desse looping em favor de um contato direto com o AGORA.
Esse estado é obtido durante a meditação e, em monastérios, mantido durante a maior parte do dia. Assim, entendemos que os monges que se levantaram para subir a cortina demonstraram progresso por entenderem a intenção do mestre sem que ele precisasse fazer mais que apontar. Estavam atentos e vivendo no momento. Um ganho?
E qual a perda? Porra, por que DOIS monges?
Quer dizer, se eles estavam de fato atentos o suficiente para intuir a intenção do mestre, é justo assumir que também percebiam o fato de que dois se levantavam para fazer o serviço de um. Ainda assim, os dois foram até lá para realizar o trabalho. Se estavam atentos, um deles não poderia ter contido seu gesto de levantar e deixar que apenas o outro subisse as cortinas?
O tradutor sugere que talvez eles quisessem impressionar o mestre. Puxar saco - todos sabemos como é. O mundo muda muito, mas nossos instintos básicos parecem os mesmos. O tradutor continua: "...eles poderiam estar pensando em ganhar mérito. Isso é sempre rejeitado no zen. Se você tem algo em mente com o qual pretende se mostrar, você é criticado. No zen, é esperado que você se comporte inocentemente - em outras palavras, que não se desvie da mente cotidiana. Se você mantém a mente cotidiana, não será afetado por quaisquer críticas que encontrar."